Vocês não tem moral pra reclamar de porra nenhuma.

O fato d’eu estar jogado no chão com esse enorme buraco no braço jorrando sangue só me fez me lembrar como isso tudo começou.
Bom, não exatamente como começou, mas a primeira vez que a gente saiu pra fazer algo de verdade. A adrenalina. O medo de algo como isso agora acontecer.
Escolhemos a primeira noite de trabalho depois do carnaval. Parada logo após a UFPB. Subimos no busão.
O primeiro problema é o canguru.
Canguru é um sistema de câmeras internas de monitoramento que fica em cada extremidade do ônibus. Presas no teto, uma capta o ângulo do motorista para todo o corredor, a outra fica logo acima do cobrador, filmando bem a cara de quem entra. Os caras são espertos. Pra quem é bem burro e não sabe pesquisar meia hora sobre o sistema no Google.
Eu e Paulo fomos pela roleta atrás do ônibus, com máscaras carnavalescas escrotas compradas na internet, baratas e irrastreáveis. No que pareceu ser um gesto só de tão rápido ele pulou a traquitana de ferro e jogou o spray prateado no canguru do cobrador. Eu só me dei ao trabalho de colocar a pistola em cima do caixa do ônibus pro cobrador notar que era pra ficar caladinho e quieto, mas, claro, como todos esses funcionários de transporte são escravos treinados pelas empresas mafiosas imundas, ele instintivamente deslizou a mão abaixo do caixa, pra apertar um discreto botãozinho que chama a atenção do motorista.
Isso não se encontra na internet. Foi fruto de muita observação. Mérito absolutamente meu.
O triste — para o cobrador, claro — é que eu já estava com a mão lá, prendendo o botão.
— Vá lá pra trás.
Simultaneamente a nosso movimento, Fernando e Eduardo entraram pela frente do ônibus e essa é a parte mais engraçada.
Os dois estavam com as mesmas máscaras grotescas mas executaram movimentações diferentes. Fernando jogou o spray no visor do canguru por debaixo do mesmo para não ser filmado e Eduardo foi bem para a frente do ônibus, abriu sua camisa de botões e exibiu outra por dentro, com letras amigáveis e garrafais escrito MANASSÉS e começou seu discurso, chamando toda a atenção para si. Paralelo a esse movimento Fernando, logo após ter pintado o canguru exibiu em sua cintura o revólver só para o motorista. Sentou bem atrás dele e falou:
— Vire a direita.
Logo a frente, na mão em que o ônibus estava, uma placa escrito “Desvio →” pendia em cima de um cone de trânsito preto e amarelo.
Entenda, cones pretos e amarelos não são nem usados pra desvio, muito menos pela STTrans. Aquele cone era um que eu tinha roubado da antiga Saelpa depois de sair de um ensaio da minha banda. Quem tinha acabado de colocá-lo ali tinha sido Augusto, um retardado que a gente conhecia e que se achava engraçado. Por um total de R$20 ele topou colocar o cone ali no momento marcado. “No questions, just for fun”. Augusto, obviamente, não sabia o real motivo daquele cone estar ali exatamente naquele momento.
Por ter estudado o poder da sugestão meses a fio eu sabia que um cone no meio da rua seria o bastante pra ninguém achar ruim a mudança no trajeto do ônibus. Pelo menos por um tempo e por causa disso tínhamos que sermos rápidos. Mas fica a dica, se você quer fazer algum ato desse tipo é bem interessante ler sobre autosugestão, técnicas simples de hipnotismo coletivo leve e ilusionismo. Achou estranho? Bom, o que um ilusionista faz é bem simples: ele tira toda a atenção de onde está havendo ação e a desloca para onde absolutamente nada está acontecendo. Assim foi a ideia do Manassés. Assim foi a ideia do cone.
Fernando olhou para trás e me viu com Paulo, levando o cobrador lá pra trás.
Nós o sentamos no meio dos fundos do ônibus, onde só tem espaço pra uma fileira de cadeiras. Nada de janelas pra ele não sinalizar. O amarramos com lacres de plástico que são extremamente resistentes. Um saco com 300 lacres fortes não passa de R$5,00 no Centro de João Pessoa. É simplesmente a mais rápida e melhor forma de imobilizar uma pessoa.
Nesse caso quem ganha o mérito pela informação foi um filme de roubo a banco que não me lembro no momento. Por mais que Hollywood seja uma merda, vez em quando vem com umas informações interessantes.
Assim que o cobrador foi imobilizado e devidamente amordaçado, coloquei um envelope de carta no bolso dele e eu e Paulo sacamos nossas mochilas em cima dos bancos. Puxamos sacolas de lixo negras e começamos o assalto.
Fernando continuava a guiar o motorista que levava o ônibus para ruas mais estreitas e menos movimentadas. Eduardo continuava com seu engodo teatral muito bem, já que as pessoas estavam achando estranho uma pessoa do Manassés ter uma grande capacidade verbal e um léxico tão bem elaborado.
A melhor forma de se fazer uma varredura é sempre de trás para frente. Em cinemas, ônibus e locais onde as pessoas estão sentadas, é importante começar por trás para não chamar a atenção de quem está na frente antes e foder todo o esquema. Com uma voz firme, baixa e direcionada, anunciamos calmamente, de fileira em fileira, que estávamos levando celulares e carteiras. Ao jogar os pertences na sacola, puxávamos pequenos post-its coloridos de um bolso da mochila e o pregávamos na testa de cada um passageiro.
Antes de chegar na metade do ônibus, pelo que foi dito depois da confusão, um homem sacou discretamente seu celular e discou um, seguido do nove e, por final, zero.
Eu e Paulo não tínhamos visto, muito menos Eduardo e Fernando que estavam lá na frente. O cara tava do lado da janela e simplesmente era impossível de ver o celular no meio dos joelhos dele.
Uma coisa que você tem que saber caso queira fazer esse tipo de provocação é surpreender. Terrorismo poético não é uma arte para qualquer um e poucos conseguem o equilíbrio perfeito entre poesia e terrorismo. Assim como na arte, nesse caso, você tem que ter umas cartas na manga.
Logo do lado do cara com o celular, levantou-se um cabeludo, que tinha uma máscara carnavalesca discretamente pendurada no seu pescoço sob uma negra camisa do Gojira. Ele se pendurou nos ferros no teto do ônibus e desferiu todo o peso de seus dois pés contra a face de quem tentou ligar pra polícia. Como se não bastasse, Alexandre, o tal cabeludo, segurou as duas alavancas de emergência da janela e se pendurou nas bordas inferiores, fazendo as alavancas cederem, soltando a janela que caiu ruidosamente no chão de barro batido. Com um empurrão suspendeu o homem que ainda tinha o celular na mão e num impulso o jogou pela janela, fazendo-o rodopiar no ar uma vez antes de se estatelar no chão e ter seu telefone destruído ao bater no chão que levantava uma densa poeira alaranjada.

Esse tipo de surpresa é um tanto quanto desnecessária. E incrivelmente útil. Todos os que falavam merda calaram-se e tornaram-se muito mais rápidos. Entregando carteiras, relógios e celulares dentro do bolso e alguns, até mesmo recebendo os envelopes na mão e colocando por si mesmos na testa.
Condicionamento sobre pressão é uma maravilha.
Mas como merda pouca é besteira, ao fim da coleta e distribuição dos envelopes, o motorista simplesmente quis dar uma escrotizada, passou por cima de um buraco propositalmente e girou o volante para a esquerda.
Eu e Paulo que estávamos em pé fomos parar de baixo da fileira da direita, Eduardo que já tinha parado sua pregação há alguns minutos estourou uma janela com a sua cabeça e Fernando que estava bem atrás do motorista ainda conseguiu segurar o divisor da janela a tempo, mas sua mão escorregou e ele chapou suas costas nas placas de metal antiaderente no chão do corredor do ônibus.
Minha arma ao cair, assim como a de Paulo, fez um barulho tosco de plástico leve, mostrando a procedência daquelas merdas.
Eu só senti uma mão puxando meu tornozelo e me arrastando debaixo do banco. Um negão que tinha um bíceps mais largo que minha cintura me içou até eu bater com a cabeça na escotilha superior do ônibus e fez questão de descosturar a gola da minha camisa que não tinha três dias que comprei. Fiquei puto, mas eu sabia que não deveria ter saído com ela nesse dia.
Outros dois puxaram Paulo pelos joelhos e a pancadaria começou. Até velha dando bolsada em Alexandre eu vi. Foi uma palhaçada.
POU POU POU!
Três buracos fumegantes no teto do ônibus.
Eduardo erguia um revólver genuíno. De sua testa ainda com destroços do vidro, sangue cascateava e encharcava a frase “Jesus te Ama” na manga da camisa Manassés. Ele não precisou falar nada.
Os passageiros se sentaram e nós nos levantamos. Não sabíamos que tinha uma arma de verdade ali e, pelo menos em mim, cresceu um medo completamente novo. Eu sou acostumado a apanhar, mas levar um tiro… Não.
Fernando voltou ao seu posto e ordenou que o ônibus parasse. Imediatamente todos os passageiros, com o motorista e o cobrador amarrado, foram evacuados do veículo. Alexandre sentou ao volante e seguimos direto.
Todo ônibus urbano, principalmente os com canguru, são rastreados por satélite. Não queira dar um de sequestrador de ônibus que você se fode. É burrice. Eles não perderiam um investimento de alguns milhares de reais e simplesmente perderiam um veículo desse tamanho. A gente sabia disso.
Adentrando agora num matagal lamacento, paramos o ônibus, juntamos as sacolas de lixo e jogamos tudo nas mochilas de viagem, carregada nas costas de cada um. Desligamos o ônibus e por precaução arrancamos a “caixa preta” do canguru, que fica logo acima da divisória de vidro às costas do motorista.
Como deixado por nós anteriormente, bicicletas nos esperavam presas às árvores ali perto. Cada um desabotoou seus casacos/camisas e exibiram outras roupas por baixo. Paulo retirou sua máscara e exibiu um imponente nariz, Fernando retirou a sua e colocou seus óculos, Eduardo retirou a máscara, limpou o sangue recém estancado com sua camisa do Manassés, prendeu seu cabelo pra trás e exibiu belos olhos verdes, eu retirei a máscara que há muito estava me sufocando e mostrei minha deformada face e Alexandre não fez nada. E só tínhamos notado agora.
— Velho, porque caralho você não colocou a máscara?
A máscara ainda estava pendurada em seu pescoço.
— Não lembrei.
— Você sabe que todo mundo te viu jogar aquele cara lá na puta que pariu, né?
— Eu tô ligado.
— Porque você fez aquela idiotice?
— Você não imagina o quanto eu queria puxar aquelas alavancas. Desde pirralho.
Nos entreolhamos.
Eduardo pegou uma pedra de barro do tamanho de uma granada que estava aos seus pés. Alexandre tentou fugir e foi pior.
Não sei se vocês já brincaram de guerra de pedra de barro. Ao impacto, a pedra se desintegra, deixando apenas um ponto de barro compactado, no centro da batida.
Isso dói pra caralho.
— Tu sabe o que vai acontecer agora que todo mundo viu tua cara, né?
— O que? — perguntou Alexandre.
Todos nós olhamos para os longos e sedosos cabelos que se precipitavam ondulantes desde o topo da cabeça até bem depois dos ombros.
Quase deu pra se ouvir o cérebro de Alexandre estalar.
— O que?! Não. Não. Não! Não, nem fodendo! Não, NÃO! EU NÃO VOU CORT —
— Depois a gente conversa sobre isso.
Subimos nas bicicletas, umas com mais de um passageiro em cima, e seguimos rumo, tomando cuidado para não deixarmos rastros no chão.
O apanhado, depois de contabilizado, deu R$1087,50 pra cada.
Assim que a poeira alaranjada subiu, os mais espertos sacaram telefones celulares de suas meias e os mais curiosos, pegaram os envelopes da testa e os rasgaram, retirando um pequeno cartão com os dizeres:
“Se você é assaltado todo dia pela empresa privada de transporte público que aumenta as tarifas todo ano sem melhorias para os empregados ou para os usuários e você não toma nenhuma atitude, você não vai se importar se nós assaltarmos vocês também, né?”
E finalmente, caso você realmente tenha vontade de fazer esse tipo de coisa, dou a última dica:
Tenha um bom motivo pra isso.