A diferença entre experiência artística e entretenimento supérfluo e trivial.

imagem de um bonequinho da série portal perseguindo um pedaço de bolo entre o portal laranja e o portal azul

Há décadas existe uma grande discussão sobre a inclusão de games como a mais nova expressão de arte, logo após o cinema. Segundo o Aurélio (4ªEd), jogo é uma “atividade física ou mental fundada em sistema de regras que definem a perda ou o ganho”. Já sua concepção para arte, mais precisamente para artes plásticas, diz que: “Artes que se manifestam por meio de elementos visuais e táteis, tais como o desenho, a pintura, a escultura. Etc”. Obviamente não estou aqui para discutir o vocabulário da língua portuguesa, mas faço uso destes dois termos para ilustrar a própria natureza dos jogos eletrônicos, que nada mais são que uma atividade fundada em um sistema de regras que define a experiência da perda ou ganho, utilizando por meio das artes plásticas (entre outras), tanto visuais como táteis, para atingir certo objetivo.

Conseguir captar estes aspectos significa acreditar que a Arte dos Jogos é uma arte genuína e que deve ser tratada como tal.

Nos últimos anos, houve uma divergência desse objetivo que basicamente tem sido bilateral. De um lado temos a já instituída indústria dos jogos, onde sua produção tende mais ao primeiro conceito citado aqui, o de jogo puro, de entretenimento beirando resultados vazios e, salvo raras exceções, de objetivo estritamente comercial. Do outro lado, alavancada por uma enorme vanguarda de players ansiosos por exemplos mais sofisticados de jogos, vem a ascensão das produtoras independentes, com belas obras muito bem elaboradas, geralmente com conceitos ‘gamísticos’ pouco (ou completamente ine)explorados até então.

Você, com certeza, já viu isso antes. O lado B do cinema lutando contra o “poderio bélico” de Hollywood, ou aqui mesmo no nordeste, o Axé e o Forró de Plástico, como chamava o próprio pai do forró Gonzaga, contra os músicos eruditos independentes da cena underground. É bom frisar que linko esta semelhança para exemplificar, mas no caso do cenário de games, o problema de conteúdo é de certa forma mais agravante. A participação do público é um dos fatores arquetípicos da natureza da Arte dos Jogos. A arte não vai se desenvolver ou sequer existir, se não houver a recepção da mensagem referencial ao jogador. E essa recepção só acontece quando há a imersão do referente ao que lhe é proposto e o mais importante: sua intervenção. Exceto a arte da Performance, não há outra arte que tem em sua gênese a intervenção do público. A arte milenar do Teatro já tinha seus séculos de história e desenvolvimento quando começou a chamar a plateia ao palco. Logo, a Arte dos Jogos visa a experiência de quem joga com a obra em questão, e não só simplesmente a assimilação de seu conteúdo.

Tendo em base este fato, e também em nossos próprios padrões, podemos começar a classificar estas experiências de forma que valorize a pluralidade das sensações obtidas no processo de participação e consumo da obra, visando sempre absorver o máximo de suas capacidades artísticas. Podemos usar como exemplos: compreender e saborear uma jogabilidade que é paradoxalmente elaborada e ao mesmo tempo muito simples; Perceber o sutil encaixe entre trilha sonora e desenvolvimento do jogo e sentir diferença entre a praticidade da interface de menus dois jogos semelhantes. Sendo assim, teoricamente, um jogo pode ser considerado um artwork quando explora sua hibridez artística, proporcionando uma vasta gama de experiências ricas e originais a quem joga.

A participação do público é um dos fatores arquetípicos da natureza da Arte dos Jogos. A arte não vai se desenvolver ou sequer existir se não houver a recepção da mensagem referencial ao jogador.

Conseguir captar estes aspectos significa acreditar que a Arte dos Jogos é uma arte genuína e que deve ser tratada como tal. Assim conseguimos desmistificar essa história que videogames são coisas infantis e simples “brincadeiras”. (Nesse caso é importante salientar que a maioria esmagadora das vendas de jogos atualmente são para o público +17, que de criança não tem mais nada [pelo menos teoricamente!]).

No fim, o conceito de ser um simples jogo ou um artigo artístico jogável depende da capacidade de o jogador entender a complexidade (ou a superficialidade, se for o caso) do que está jogando. Assim conseguiremos sofisticar ainda mais essa que é a arte mais jovem de todas e fazer coisas melhores serem produzidas. E além disso, no país onde vivemos, é extremamente importante que tenhamos esta capacidade e o conhecimento para pô-lo em execução, para que consigamos galgar um status e importância cultural para a Arte dos Jogos para, por exemplo, modificarmos a tributação de games, aparelhos e acessórios. Em minha ótica, é vergonhoso uma obra como Mass Effect ou um GTA IV ser importado para o Brasil com o taxamento de “jogos de azar”, juntamente com máquinas caça níqueis e bingo. E só quem pode mudar isso somos nós, jogadores.